terça-feira, 29 de abril de 2008

Milionários



Segura minha mão. Vamos para a chuva
descalços e com roupa leve, sem guarda-chuva,
com o cabelo ao vento e o corpo na carícia
oblíqua, refrescante e miúda, da água.

Que riam os vizinhos! Posto que somos jovens
e nos amamos e adoramos a chuva,
vamos ser felizes com o prazer singelo
de um casal de pardais que arrulha na rua.

Adiante estão os campos e o caminho de acácias
e a chácara suntuosa daquele pobre senhor
milionário e obeso, que com todos os seus ouros

não poderia comprar nenhum grama do tesouro
inefável e supremo que Deus nos deu:
somos flexíveis, jovens, estamos cheios de amor.

Juana de Ibarbourou

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Ismália


Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
.
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...
.
E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...
.
E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...
.
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...
.
.
Alphonsus de Guimaraens

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Contra-senso


Oh, meu amor, escuta, estou aqui.
Pois o teu coração bem me conhece:
eu sou aquela voz que, em tanta prece,
endoideceu, chorou, gemeu por ti!

Sou eu, sou eu que ainda não morri
- nem a morte me quer, ao que parece -
e vinha renovar, se ainda pudesse,
as hora dolorosas que vivi.

Oh, que insensato e louco é quem ilude!
Quis fugir, esquecer-te, mas não pude...
Vê lá do que os teus olhos são capazes!

Deitando a vista pelo mundo além,
desisto de encontrar na vida um bem
que valha todo o mal que tu me fazes!

Marta de Mesquita da Câmara

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Soneto nº 116


Que eu não veja impedimento
Na sincera união de duas almas.
Não é amor aquele que,
Encontrando modificações, se modifica
Ou diminui se o atinge o desamor do outro.
Oh, não! O amor é para sempre
E enfrenta ileso as piores tempestades.
É a estrela guia para cada barco errante,
De brilho intenso, mas valor secreto.
O amor não depende do Tempo
Não escolhe nem dia nem hora
Mas resistirá ao limiar da Morte.
E, se provar que estou errado,
Nunca fiz versos, nem jamais alguém terá amado.

William Shakespeare

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Os Livros


Pacientes, os livros.
Silenciosos aguardam
que libertes
suspiros e pássaros
que habitam sua moradia.

Os livros são barcos,
e te deixas navegar
por tempestuosos capítulos
e reflexivas calmarias.

Certos livros mudaram
os rumos da história.
À noite, dormem de pé
em tuas estantes.

Profundos ou amenos,
em tuas mãos
fazem um ninho e ali se quedam
mansos e confidentes.

Os livros falam, cantam
aos que sabem ouvir
seus secretos murmúrios.

Quantos poemas
tatuaram tua alma?

Uma biblioteca
é um palco onde se movem
trágicos e glosadores.

Ao término de sua leitura,
suavemente
cerram-se as cortinas.

Faróis e bússolas
conduzem os livros
quando viajam no tempo.

Cada parágrafo guarda
Partículas de suor dos escribas.

Sobre o tapete dos livros
voavas qual Aladim.
Hoje tens neles
tuas hélices e travesseiros.

Luiz Coronel

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Canção do vento e da minha vida


O vento varria as folhas,
O vento varria os frutos,
O vento varria as flores...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De frutos, de flores, de folhas.

O vento varria as luzes,
O vento varria as músicas,
O vento varria os aromas...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De aromas, de estrelas, de cânticos.

O vento varria os sonhos
E varria as amizades...
O vento varria as mulheres...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De afetos e de mulheres.

O vento varria os meses
E varria os teus sorrisos...
O vento varria tudo!
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De tudo.


Manuel Bandeira

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Coração é terra que ninguém vê


Quis ser um dia, jardineira
de um coração.
Sachei, mondei - nada colhi.
Nasceram espinhos
e nos espinhos me feri.

Quis ser um dia, jardineira
de um coração.
Cavei, plantei.
Na terra ingrata
nada criei.

Semeador da Parábola...
Lancei a boa semente
a gestos largos...
Aves do céu levaram.
Espinhos do chão cobriram.
O resto se perdeu
na terra dura
da ingratidão

Coração é terra que ninguém vê
- diz o ditado.
Plantei, reguei, nada deu, não.
Terra de lagedo, de pedregulho,
- teu coração. Bati na porta de um coração.
Bati. Bati. Nada escutei.
Casa vazia. Porta fechada,
foi que encontrei...

Cora Coralina

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Do amoroso esquecimento


Eu agora - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?

Mário Quintana